Fotografia de LM
quinta-feira, 27 de maio de 2010
segunda-feira, 24 de maio de 2010
domingo, 25 de abril de 2010
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Entre a espada e a parede
Christ Church, Oxford, 28 de Outubro de 1876
Minha muito querida Gertrude:
Ficarás com pena, surpreendia e perplexa por descobrires de que estranha doença tenho sofrido desde que nos separámos. Chamei o médico e disse-lhe. “Preciso de um remédio; estou cansado.” Ao que ele respondeu: “Disparate! Você não precisa de remédios: meta-se na cama!”
Eu continuei: “Não, não é o tipo de cansaço que se cure com cama. Sinto-me cansado na cara.” Ele pareceu ficar um pouco sério, e disse: “Oh! é o seu nariz que está cansado: uma pessoa fala muitas vezes de mais quando pensa que sabe demasiado”. Eu respondi: “Não, não é o nariz. (…) e não é propriamente o cabelo: é mais em redor do nariz e do queixo.” Então, ele ficou consideravelmente mais sério, e disse: “Esteve, ultimamente, a caminhar com frequência sobre o seu queixo?” Eu respondi que não. “Bom, estou realmente bastante intrigado”, disse ele.
“Acha que o problema está nos lábios?” Ao que respondi “Claro! É precisamente isso!” Então ele ficou realmente muito sério e disse: “Penso que você deve ter dado demasiados beijos”. “Bem, dei realmente um beijo a uma criança, a uma amiguinha minha.” “ Pense melhor”, disse ele, “tem a certeza de que foi apenas um?”. Pensei e disse: “Talvez fossem onze.” E o médico disse: “Não deverá dar mais beijo algum até que os seus lábios estejam completamente descansados.”
“Mas o que devo fazer então?”, perguntei eu. “Porque, sabe, eu ainda lhe devo outros centro e oitenta e dois.” Nesse instante, ele pareceu ficar de tal forma sério que as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo, e disse: “Pode sempre enviá-los numa caixa.”
Lembrei-me então de uma pequena caixa que tinha comprado em Dover, pensando um dia oferecê-la a alguma rapariguinha. Por isso, coloquei-os todos muito cuidadosamente dentro da caixa. Diz-me depois se chegaram bem, ou se algum ficou perdido pelo caminho.
De Lewis Carroll para Gertrude
Minha muito querida Gertrude:
Ficarás com pena, surpreendia e perplexa por descobrires de que estranha doença tenho sofrido desde que nos separámos. Chamei o médico e disse-lhe. “Preciso de um remédio; estou cansado.” Ao que ele respondeu: “Disparate! Você não precisa de remédios: meta-se na cama!”
Eu continuei: “Não, não é o tipo de cansaço que se cure com cama. Sinto-me cansado na cara.” Ele pareceu ficar um pouco sério, e disse: “Oh! é o seu nariz que está cansado: uma pessoa fala muitas vezes de mais quando pensa que sabe demasiado”. Eu respondi: “Não, não é o nariz. (…) e não é propriamente o cabelo: é mais em redor do nariz e do queixo.” Então, ele ficou consideravelmente mais sério, e disse: “Esteve, ultimamente, a caminhar com frequência sobre o seu queixo?” Eu respondi que não. “Bom, estou realmente bastante intrigado”, disse ele.
“Acha que o problema está nos lábios?” Ao que respondi “Claro! É precisamente isso!” Então ele ficou realmente muito sério e disse: “Penso que você deve ter dado demasiados beijos”. “Bem, dei realmente um beijo a uma criança, a uma amiguinha minha.” “ Pense melhor”, disse ele, “tem a certeza de que foi apenas um?”. Pensei e disse: “Talvez fossem onze.” E o médico disse: “Não deverá dar mais beijo algum até que os seus lábios estejam completamente descansados.”
“Mas o que devo fazer então?”, perguntei eu. “Porque, sabe, eu ainda lhe devo outros centro e oitenta e dois.” Nesse instante, ele pareceu ficar de tal forma sério que as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara abaixo, e disse: “Pode sempre enviá-los numa caixa.”
Lembrei-me então de uma pequena caixa que tinha comprado em Dover, pensando um dia oferecê-la a alguma rapariguinha. Por isso, coloquei-os todos muito cuidadosamente dentro da caixa. Diz-me depois se chegaram bem, ou se algum ficou perdido pelo caminho.
De Lewis Carroll para Gertrude
segunda-feira, 12 de abril de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Virar do Avesso
Se a Páscoa é tempo de oração, a nossa faz-se por dentro. Ou de dentro para fora. Geralmente as palavras dos fiéis estão tão acertadas com o ritmo que o padre prega, que pergunto se eles pensam no que dizem ou se dizem o que sentem.
Conversámos sobre tudo, sobre nós, o futuro, os desejos e os muitos receios. É fazer a mesa com palavras, umas que se conservam, outras que é melhor provar no momento e aprender a digerir. Esta foi a NOSSA Páscoa. Cada passo que demos foi uma descoberta, uma oração de fé no amor e no que acreditamos que aí virá. Não precisámos de cravar os joelhos frente a uma imagem de barro para provar que confiamos um ao outro o que de melhor e menos bom temos para dar. Assim se reza, por cá.
LM
Conversámos sobre tudo, sobre nós, o futuro, os desejos e os muitos receios. É fazer a mesa com palavras, umas que se conservam, outras que é melhor provar no momento e aprender a digerir. Esta foi a NOSSA Páscoa. Cada passo que demos foi uma descoberta, uma oração de fé no amor e no que acreditamos que aí virá. Não precisámos de cravar os joelhos frente a uma imagem de barro para provar que confiamos um ao outro o que de melhor e menos bom temos para dar. Assim se reza, por cá.
LM
domingo, 21 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O que não FAZEMOS
Voltámos ao país do faz-de-conta. Vimos terras desproporcionadas, casas desviadas do projecto, ruas entupidas e restaurantes escuros. Vimos que há lugares piores, lugares diferentes, lugares assim-assim, lugares onde não se pode colocar o cotovelo na mesa, lugares onde há tantas peles penduradas que dava para construir um estádio com casacos. Come-se caro, come-se menos, come-se. Não se delicia. Só com uma tábua de presunto e queijo. Ora, como é que, a atravessar a indústria do estado vizinho, nos deparamos com outdoors que anunciam um carro por menos 5 mil euros do que em Portugal? O mesmo carro, em caso de dúvida. É que, do menos que temos, raramente conseguimos fazer mais. O mais que temos, nem sempre usamos para vencer. Nem para vender. Tapamos os olhos e achamos que somos muito, quando afinal nos sobra tão pouco. As aparências iludem, neste país do faz-de-conta. Faz-de-conta que tens dinheiro, faz-de-conta que o jornal que levas do quiosque vai ser reciclado, faz-de-conta que o lês, faz-de-conta que esse relógio não é uma imitação foleira, faz-de-conta que isso importa, faz-de-conta que tens emprego, faz-de-conta que não deves ao banco, faz-de-conta que o teu país está certo.
LM
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
MALA PRONTA
Já escrevi muito sobre Nova Iorque. Nem sempre muito bem. As palavras entram numa azáfama perturbadora quando me refiro à cidade. Acredito que a culpa é da vontade: rodopiar novamente nas margens do East River e olhar de soslaio Manhattan, pela lente dos grandes clássicos do cinema. É incrível como um ano pode parecer uma vida e como, numa cidade que nos é alheia, se pode construir a casa. Em alturas assim, o melhor é ir. A ver se se descobre onde ficar.
LM
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
PERMANECER
Porque há coisas que não queremos que mudem. Há as viagens na nossa terra, a chuva que desperta em gotas fartas, o cheiro tenro da manhã, as folhas que acolchoam de cor o caminho, as mãos dadas para não escorregarmos em desesperança, o riso franco que não se esconde dos lugares habitados, o jantar saboreado a quatro-olhos. E, depois, o jornal aberto naquela página, o que foi que se comenta e o que vem que não se explica, os amigos que são amigos sem ser preciso estar, as casas que não são nossas e nos pertencem, os versos que não se dizem mas que ouvimos. O regresso. Música.
LM
Fotografias de LM e RMP
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
domingo, 13 de dezembro de 2009
Querido Pai Natal:
Diz-se por aí que estamos em crise. As notícias não são, de facto, animadoras. Há portas que se fecham e, sobretudo, sorrisos que se amarram em desespero. Há gente que trabalha de sol a sol e, mesmo assim, não consegue enfrentar as suas parcas despesas. Sei que não é por mau comportamento nem por terem errado o tempo verbal quando te fizeram o pedido deste ano. Imagino que recebas demasiadas cartas, algumas ilegíveis, outras dispensáveis. Aceito que esta seja mais uma. Mas gostava que calçasses as botas de neve, gelasses o nariz nos telhados e arregaçasses o fato vermelho para escutar (sem analogias políticas) o coração do mundo. Está doente e enfadado. Nota-se pelo clima (que aquece). Os glaciares desprendem-se de preocupação e as florestas ardem de tanto pensar. Mais: nós, animais, que corremos e concorremos, que nos matamos, desgraçamos, esmigalhamos, estamos a pisar terrenos cada vez mais incertos, areias movediças, chão de colmo, e balançamos para o lado que mais nos convém. Afundámos o barco da economia e nem Noé conseguiu socorrer-nos. Agora estamos para aqui, caídos em desespero. Os velhos encostados por serem velhos, os novos parados por serem demasiado novos. Quem nos entende? Por isso, Pai Natal, este ano gostava de te solicitar, encarecida e ardentemente, um programa computacional que decifrasse mentes alheias. Pode ser que assim perceba. Não precisa de ser um presente. É mais uma encomenda. Pago com rabanadas e sonhos arrebitados. Deixo-te na janela um copo de leite, não vá sofreres de osteoporose!
Sempre agradecida,
Eu.
Diz-se por aí que estamos em crise. As notícias não são, de facto, animadoras. Há portas que se fecham e, sobretudo, sorrisos que se amarram em desespero. Há gente que trabalha de sol a sol e, mesmo assim, não consegue enfrentar as suas parcas despesas. Sei que não é por mau comportamento nem por terem errado o tempo verbal quando te fizeram o pedido deste ano. Imagino que recebas demasiadas cartas, algumas ilegíveis, outras dispensáveis. Aceito que esta seja mais uma. Mas gostava que calçasses as botas de neve, gelasses o nariz nos telhados e arregaçasses o fato vermelho para escutar (sem analogias políticas) o coração do mundo. Está doente e enfadado. Nota-se pelo clima (que aquece). Os glaciares desprendem-se de preocupação e as florestas ardem de tanto pensar. Mais: nós, animais, que corremos e concorremos, que nos matamos, desgraçamos, esmigalhamos, estamos a pisar terrenos cada vez mais incertos, areias movediças, chão de colmo, e balançamos para o lado que mais nos convém. Afundámos o barco da economia e nem Noé conseguiu socorrer-nos. Agora estamos para aqui, caídos em desespero. Os velhos encostados por serem velhos, os novos parados por serem demasiado novos. Quem nos entende? Por isso, Pai Natal, este ano gostava de te solicitar, encarecida e ardentemente, um programa computacional que decifrasse mentes alheias. Pode ser que assim perceba. Não precisa de ser um presente. É mais uma encomenda. Pago com rabanadas e sonhos arrebitados. Deixo-te na janela um copo de leite, não vá sofreres de osteoporose!
Sempre agradecida,
Eu.
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
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